O senhor dos livros

Entrevista Donaldo Shüller – Patrono 50ª Feira do Livro de Porto Alegre

Donaldo: "eu me construo e me transformo através da escrita."
O patrono da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre, Donaldo Schüler, de 72 anos, é natural de Videira/SC e mora na capital gaúcha desde a adolescência. É bacharel e licenciado em Letras pela UFRGS, doutor em Letras e Livre-Docente pela PUCRS, doutor em Letras e Livre-Docente pela UFRGS, professor titular da UFRGS e pós-doutorado na USP. Schüler atuou nos cursos de Literatura Grega, Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Filosofia Antiga na UFRGS e em várias outras universidades, em níveis de graduação e de pós-graduação, além de proferir conferências em universidades nacionais e estrangeiras.

Confira a seguir a entrevista exclusiva com o patrono da Feira do Livro 2004 concedida ao Via RS.

1)Como é ser patrono justamente na 50ª Feira, uma data tão especial?
Bem, eu venho acompanhando a Feira do livro desde o seu princípio e esta 50ª é uma construção que vem se fazendo ao longo dos anos. A Feira hoje é, evidentemente, muito diferente do que era no princípio, uma feira com algumas barracas. O porte que ela tem hoje é excepcional e surpreendente. De modo que é uma satisfação poder trabalhar com os editores e livreiros neste empreendimento que coloca Porto Alegre numa situação singular em empreendimentos desta natureza.

2)O sr. lembra da sua primeira visita à Feira? Como Foi?
Ah, sim. Eu visitava a Feira, como todos naquela época visitavam. Vim como leitor e me tornei comprador de livros desde o princípio. E tive a satisfação de encontrar na Feira livros que de outra forma eu teria mais dificuldade de encontrar. A Feira reunia num mesmo lugar livros com uma temática muito diversificada. E essa é uma vantagem da Feira do Livro, o comprador de livro tem a oportunidade de encontrar num espaço mais reduzido os livros que de outra forma estariam distribuídos em espaços bem mais amplos.

3)Conte-nos como começou sua relação com os livros?
Bem, a minha relação com os livros começa aos dois anos no berço. E entendo que deve começar assim. Porque as histórias que as mães contam para as crianças, ou quem está em seu lugar, são muito importantes para a formação da criança. E no momento em que a criança estabelece relações entre as histórias que são contadas e a escrita ela desperta o interesse pela escrita. E deve-se fazer diferença entre a literatura escrita e a literatura oral. A literatura oral é muito importante. Então, de fato, o interesse pelo mundo dos livros, pelo mundo da imaginação, pelas narrativas, começa muito cedo na experiência infantil.

4)O sr. vai lançar algum livro este ano na Feira?
Bem, um dos livros que eu vou lançar se chama Finnicius Revêm. É um livro para crianças, é uma adaptação para crianças e adolescentes em que eu reconto as narrativas de Finnigans Wake, de James Joyce. É um Finnigans Wake para crianças.

5)Além da literatura qual sua outra paixão?
Olha, paixão verdadeiramente eu não tenho, porque eu me ocupo em tempo integral com os livros. Eu escrevo. E quando eu não escrevo eu leio, faço projetos em função da literatura, tenho atividades de leitura em grupos*. Dirijo seminários há muito tempo, fora da atividade universitária, que foi minha atividade principal ao longo da vida. Então minha atividade principal é em torno da cultura, dos livros. Se eu não leio livros, vejo filmes, ouço música, vejo pintura, vou a exposições. Então minha paixão é esta.

6)Que tipo de livro o sr. gostaria de ter escrito e não escreveu?
Na verdade a minha atividade como escritor é muito variada. Eu escrevo ensaios, escrevo literatura infantil, escrevo poesia, escreve prosa, tenho vários romances. A minha atividade ensaística é muito intensa. Traduzo teatro, estou começando a escrever peças para teatro. De sorte que não escapou nada. Ainda não escrevi roteiro para cinema, o que poderá acontecer. Mas eu me ocupo simultaneamente com esta gama de atividades, de sorte que quando eu não me sinto satisfeito com uma eu passo para outra. Sempre tenho vários projetos em andamento.

7)Nesta vasta produção há algum preferido?
Bom, eu respondo essa pergunta dizendo que o meu preferido é aquele que eu ainda não escrevi. Por isso eu me mantenho escrevendo. Se eu tivesse algum preferido eu não escreveria mais. E só se justifica escrever quando se acredita que ainda há alguma coisa para escrever. Então, um preferido eu ainda não escrevi.

8)E de outro autor? Há algum preferido?
As minhas preferências variam. Eu escrevi um ensaio, que vai aparecer agora em segunda edição, com o título “A construção da Ilíada”, isso eu já fiz há bastante tempo, nos anos sessenta, um trabalho que durou dez anos. Então por essa época eu me ocupava preferencialmente com Homero. E ultimamente, quando eu traduzi Finnigans Wake, eu tratei de adquirir a literatura especializado sobre Joyce, Finnigans Wake. Então por uns cinco anos eu não lia outra coisa senão literatura anglo-saxônica, literatura de vanguarda do início do século XX. As artes do século XX. O pensamento do século XX. Mas sempre centrado em James Joyce. Quando esta atividade conclui eu passo para outra. De modo que, conforme eu escrevo esses interesses variam de acordo com aquilo que eu estou fazendo.

9)O sr. disse recentemente que o livro é fundamental na formação das pessoas. Que papel o sr. atribui então à Feira na formação de novos leitores?
Bem, na verdade é fundamental. Porque eu não concebo a atividade do homem, em uma sociedade desenvolvida, que esteja desvinculada do livro. Logo, a importância que a Feira do Livro está tendo responde à esta necessidade. Se nós queremos um Brasil desenvolvido, este Brasil desenvolvido não se poderá fazer à margem do livro. Então, o nosso propósito é levar o livro a todos os brasileiros. E que a situação econômico dos leitores não seja um impeditivo para ter acesso aos livros. Acho que temos um dever de proporcionar a todos os brasileiros, e no caso específico, a todos os porto-alegrenses a nossa meta imediata, que é a oportunidade de ler. Os poderes públicos e as empresas privadas devem se unir para criar bibliotecas em todos os lugares, penso inclusive dentro de estabelecimentos empresariais, como comércio, indústria. Que criem bibliotecas e as ponham a disposição do funcionários e dos operários que trabalham nessas empresas.

10)O sr. acredita que as autoridades desenvolvem boas políticas públicas para o incentivo à leitura?
Já está se fazendo, mas evidentemente os recursos destinados a este fim ainda não são suficientes. Inclusive a Prefeitura de Porto Alegre está fazendo bastante neste sentido. Mas este esforço deve ser muito maior do que está acontecendo. Esse deve ser um esforço sistemático e que não esteja vinculado a um determinado período. Isso que está se fazendo deve ser ampliado ainda muito mais.

11)E o livro? Qual a sua expectativa para o futuro do livro, uma vez que as novas tecnologias acabam assumindo uma grande parcela do lazer e da informação das pessoas?
Veja, os novos recursos que se tem como televisão, os meios de comunicação, a Internet, jogos eletrônicos, na verdade não desviam atenção ao livro. Isso se vê mesmo em Porto Alegre. Ultimamente surgiram na cidade livrarias de porte e que manifestam uma circulação constante de leitores. E nessa Feira, por exemplo, nós temos 16 bancas dirigidas só à literatura infantil, nós temos mais de 100 editoras que estão presentes na cidade de Porto Alegre. No ano passado se editaram no Brasil 36 mil títulos. É uma quantia significativa. Pelas informações mais recentes que se tem o número de leitores de livros é de 16% da população brasileira. O que ainda é um número muito pequeno, mas é muito melhor do que em anos anteriores. Nós pretendemos aumentar essa taxa e levá-la a um número que atinja efetivamente todos os brasileiros.

12)O senhor falou da grande área dedicada ao público infantil. Que livro o senhor indicaria para uma criança, para lhe despertar o prazer pela leitura?
Acho que isto deve ser de uma decisão pessoal. Eu não gostaria de fazê-lo, muito menos ainda na qualidade de patrono. Mas tanto os pais quanto os professores e as próprias crianças devem ser consultadas nos desejos que têm. A gente deve começar a ler naquilo que gosta de ler. A própria leitura cria posição crítica e no momento que uma determinada leitura não satisfaz mais, se passa para uma outra leitura. A vontade de quem lê deve ser um elemento decisivo para a escolha do livro.

13) A Feira sempre foi marcadamente um espaço aberto à diversidade. Este ano a Bahia é o estado convidado e a Alemanha o país homenageado. Fale um pouco sobre a importância desta diversidade para a Feira?
Bom, a nossa relação com a Bahia é antiga, inclusive originária. O Brasil nasce na Bahia. A cultura baiana, portanto, é a cultura mais antiga do Brasil. E é muita diversa da cultura sul-riograndense, marcada pela imigração, o que dá uma característica muito peculiar aos estados sulinos em relação ao resto do país. Então a presença da Bahia é a retomada da nossa tradição mais profunda. A Bahia tem a função de ser o berço do Brasil e é um elemento de identificação nosso, como brasileiros. De outro lado, a relação com a Alemanha significa a relação com a Europa, é nossa origem. Nós vamos fazer este trânsito, do Brasil para a Europa, para a Ásia, para todos os países do mundo. Entendo que a presença da Alemanha seja simbólica, do exterior em relação ao Brasil. O Brasil para se desenvolver deve se abrir às outras nações. E a presença de uma nação estrangeira, convidada para participar da Feira do Livro, mostra esta vontade de Porto Alegre e do Brasil de conviver com os que não são brasileiros.

14)Sendo assim, qual a sua expectativa para a Feira deste ano?
Bem, numéricas, 2 milhões de freqüentadores. Nós temos muitos espetáculos, muitas atividades previstas. Em uma delas, que é promovida pelo movimento Brasil Transverso, se discutirão temas relevantes para o confronto das diferentes áreas como, cinema, literatura, artes plásticas, teatro. Alguns setores das artes contemporâneas ainda causam perplexidade pelo nível de inovação que apresentam. E o nosso interesse é de fazer com que se reflita sobre aquilo que a arte produz. É uma situação freqüente a distância entre aqueles que criam e aqueles que absorvem as obras de arte. Então, com essas atividades na Feira, nós queremos diminuir essa distância, para que as pessoas tenham uma noção mais precisa daquilo que está acontecendo.

15)Donaldo Shüller por ele mesmo:
Bom, na verdade eu sou escritor, então minha vida se resume a isto. A escrita , no meu caso particular, me constrói. Eu me construo em função da escrita. De modo que os meus projetos são alterados enquanto eu os elaboro. A atividade de pensar, de refletir, de criar, de imaginar, no meu caso, está diretamente ligado à escrita. Eu me faço, eu me transformo, através da escrita.

* Se você tiver interesse em participar das atividades de leitura em grupo organizadas pelo patrono Donaldo Shüller, entre em contato com ele através do telefone: + 55 (51)3344-3818.

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